IPTU, IPVA, matrícula, material escolar e até renovações contratuais fazem de janeiro um dos meses mais desafiadores financeiramente para as famílias brasileiras.
A concentração de despesas previsíveis, somada ao consumo elevado no fim do ano, costuma pressionar o orçamento logo nas primeiras semanas. Mais do que um problema pontual, o primeiro mês do ano também costuma revelar desequilíbrios que já vinham sendo construídos ao longo do ano anterior.
O problema não está no calendário, mas na falta de planejamento. Janeiro apenas evidencia o que já vinha acontecendo ao longo do ano: orçamento apertado, ausência de reserva e pouco controle do fluxo financeiro. Mas afinal, o que pesa no orçamento?
Na prática, a pressão financeira do início do ano é agravada por decisões equivocadas nos meses anteriores. A combinação entre custos fixos inevitáveis e gastos emocionais compromete a liquidez, especialmente quando despesas previsíveis são transformadas em parcelamentos longos. O resultado costuma ser a perda de visibilidade do orçamento futuro e a entrada em linhas de crédito caras, como rotativo do cartão e cheque especial.
Separar as despesas em camadas ajuda a atravessar os três primeiros meses do ano com mais tranquilidade. O ponto não é tirar o prazer da vida, mas não financiar estilo de vida com caixa curto. Em momentos de aperto, a prioridade é proteger os gastos inevitáveis, reduzir com inteligência os importantes e cortar, sem culpa, os ajustáveis.
A sugestão é organizar uma divisão clara dos gastos em três camadas:
Inevitáveis: impostos, matrícula e mensalidade escolar, contas essenciais, alimentação básica, saúde e transporte. Devem ser priorizadas e protegidas, pois são previsíveis e pouco flexíveis;
Importantes: atividades extracurriculares, academia, assinaturas, planos de serviços e lazer recorrente. Podem ser reduzidas ou renegociadas em períodos de aperto;
Ajustáveis: compras por impulso, delivery excessivo, trocas de marca por status, parcelamentos de itens desejáveis, eletrônicos fora de hora e reformas estéticas. Em momentos de pressão no orçamento, devem ser cortados sem culpa.
Mas será que é possível investir mesmo com o orçamento apertado?
Janeiro pode ser mais do que um mês de contenção. Pode se tornar um marco de reorganização financeira. O primeiro passo é mapear o trimestre, listando vencimentos e valores estimados. Em seguida, criar o chamado Fundo Janeiro para o ano seguinte, diluindo ao longo dos meses as despesas que sempre se repetem no início do ano.
Além disso, é importante jamais interromper os investimentos. A alternativa pode ser reduzir temporariamente os aportes. Um aporte simbólico, ainda que pequeno, ajuda a manter a disciplina até que o fluxo de caixa se normalize. Para atravessar o trimestre, fazem mais sentido aplicações simples, seguras e com liquidez diária, como produtos atrelados ao CDI, Tesouro Selic e fundos de caixa de baixo custo.
Janeiro não pede milagre, pede organização e método. Quem protege o caixa, mantém a reserva e escolhe liquidez com inteligência, atravessa o trimestre sem se endividar e ainda preserva o hábito de investir, que é o que constrói patrimônio no longo prazo.
Lucas Sharau é planejador financeiro e sócio da iHUB Investimentos.