Caxias do Sul 05/12/2021

A psicologia da composição

Segue o estudo da forma de analisar Poesia sob o olhar de João Cabral de Melo Neto
Produzido por José Clemente Pozenato, 25/11/2021 às 08:44:25
Foto: Marcos Fernando Kirst

Para darmos prosseguimento ao modo de João Cabral de Melo Neto encarar a poesia, vamos ler o poema “Psicologia da composição”, publicado no livro com o mesmo título, em 1947. O livro todo é uma meditação sobre o papel da poesia. Este poema, em particular, divide-se em oito partes.

Na primeira, João Cabral começa assim:

Saio de meu poema

como quem lava as mãos

O que ele diz é que a linguagem é um fluxo de água, um rio, onde o poeta mergulha as mãos para tirar conchas, cristalizadas pelo sol. Alguma delas talvez lembre a forma do pássaro que habitou nela:

talvez, como a camisa

vazia, que despi.

Isto é, enquanto o poeta está dentro da camisa, ela tem a sua forma. Depois de despi-la, sua forma corporal sai da camisa. O que há por trás dessa imagem? Simples: o poema é uma camisa despida, sem o mundo pessoal do poeta dentro dela.

Na segunda parte, João Cabral é ainda mais claro:

Esta folha branca

me proscreve o sonho,

me incita ao verso

nítido e preciso.

O que quer dizer “proscrever”? Quer dizer banir, proibir a permanência, expulsar. A folha branca do poeta manda o sonho romântico para o exílio. Ela só quer o verso nítido e preciso, aquele que diz o necessário e nada mais, sem adjetivos, sem choro, sem teatralização.

O poeta não quer, também, nada de noturno, só lhe interessa o diurno:

Como não há noite

cessa toda fonte;

como não há fonte

cessa toda fuga.

O não saber para onde ir, a fuga, nada disso deve estar na poesia. O poeta engenheiro não lida com o escuro, só com as coisas claras, não busca sentido no fundo da água, mas na superfície das coisas que não escapam da mão.

Na terceira parte, estão estes versos:

Neste papel

logo fenecem

as roxas, mornas

flores morais;

todas as úmidas

flores do sonho’.

Além de renunciar ao sonho, o poeta renuncia também a fazer discurso moral, porque essas são flores que murcham, se esvaem com o passar do tempo. E prossegue:

Não a forma obtida

em lance santo ou raro [...]

mas a forma atingida

como a ponta do novelo

que a atenção, lenta,

desenrola, aranha.

O poema não pode ser uma inspiração dos deuses ou da sorte, como um achado surpreendente, surgido por acaso. O poema é a forma atingida / como a ponta do novelo, que o poeta vai desenrolando com toda a atenção para não errar nem um pontinho. Tem de fazer como a aranha, buscar a perfeição da teia.

Trabalho que nem sempre dá certo, porque o fio do poema é tão frágil que se rompe / ao peso, sempre, das mãos / enormes. Se o fio se rompe, é preciso começar a teia de novo, prestando mais atenção, medindo todos os pontos. Só quando se consegue atar todas as pontas o trabalho de fazer o poema vai estar concluído.

Mas não terminam aqui as regras, severas, desse engenheiro da poesia.

José Clemente Pozenato é escritor e autor do aclamado “O Quatrilho”, que foi adaptado ao teatro pelo grupo caxiense Miseri Coloni; ao cinema por Fábio Barreto, concorrendo ao Oscar e transformado em ópera.

mail pozenato@terra.com.br

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