Caxias do Sul 05/08/2020

À distância, mas ainda com alegria

A amizade tem o poder de superar distanciamentos, dos controlados aos impostos pela vida
Produzido por Claudio Troian, 26/07/2020 às 09:22:30
Foto: Carlos Toigo

Neblina rima com saudades, também achas? Esse estranho estado de espírito, a mente vagabunda rodando em uma esfera repleta de lembranças, imagens, momentos.

A gente pressente ainda na cama, espécie de preguiça ancestral sussurrando – fica mais um pouquinho, está tudo tão bem organizado sob edredons. E a gente dança, negocia com travesseiros.

Mas, chega o tempo de voltar ao piso do lar, restabelecer o poder sobre os cômodos, reforçar a ração dos gatos da casa, abrir cortinas e encarar a realidade lá fora. Pronto, o ar se fez plástico, leitoso e ululante. Então, uma calmaria que nos envolve, apaziguamento sorrateiro, vontade de provar café forte, fumegante. E contemplar o vazio a preencher-se de momentos agora fugazes, escapadiços.

Os amigos hoje distantes, foram tantos, um mosaico tridimensional de rostos sobrepostos em vertiginosa sequência. Pois é, agorinha mesmo foi assim com meu irmão-do-coração Ilson Oigalê!. Salta da cama, como primeira providência ouve Jethro Tull (Locomotive Breath – Aqualung) apenas mentalmente e é o suficiente, pronto, desmorona. Está saudoso, 1972 retorna vigoroso, são verdes anos.

A música tem dessas coisas, rejuvenesce, aproxima o velho e a criança interior. Ato contínuo, abre áudio e fala solitário com seus irmãozinhos, fala só, o distanciamento da hora esmaga a vontade, faz a alma flanar, o corpo fremir e a mensagem claudica, sufocando soluços. Mas insiste, não desiste.

Somos assim, amamos aqueles que nos amaram tanto quanto. A mensagem chega, temos recursos virtuais. Respondo que, aos ouvidos da criança, o choro do velho é música, tem gosto de reencontro. É tudo de que precisamos nesta hora. Um pingo de carinho torna-se uma cisterna de afagos. Nos abraçamos, solidários como sempre o fôramos.

Rápidas lembranças, conversas em dia, premissas de um amanhã mais brando. Convite para futuro breve, macarrão & vinho, visitas agradáveis. Olho pela vidraça, a neblina já esmaeceu, cumpriu sua missão. Seguimos.

Amigos, mesmo que isolados, se fazem sempre presentes. Ademais, matar assim saudades, dispensa uso da máscara e do álcool em gel, posto que à distância, ao contrário de que se presencial o fosse. Cuide-se, amado irmão!

Claudio Troian é produtor cultural

mail claudiotroiancaxias@gmail.com