Caxias do Sul 20/01/2021

2020: O ano que não quer terminar!

“Uma mentira repetida mil vezes, torna-se verdade” (Joseph Goebbels)
Produzido por Gustavo Miotti, 09/01/2021 às 15:40:49
Foto: ARQUIVO PESSOAL

Caro leitor, inicio esta crônica já com um pedido de desculpas. Serei muito franco e direto! Se você acredita que a Covid-19 se espalha pelas redes 5G e que a vacina é controlada por superpotências que querem dominar o mundo, esta crônica não é para você! Minhas escusas, mas você não vai compreender o que eu pretendo dizer.

2020 foi um ano em que, se a humanidade tivesse acreditado mais na ciência e menos em teorias conspiratórias, tanto sofrimento não teria acontecido! E o mesmo tristemente parece estar se repetindo este ano. Felizmente, alguns países como Nova Zelândia, Taiwan e Coreia do Sul, apontaram para o caminho certo de como o governo e os cidadãos devem se comportar e servirão de exemplo para futuras pandemias.

Por sua vez, o país mais rico do mundo escancarou suas vulnerabilidades de forma melancólica e vergonhosa, através de um líder incapaz, insensível e narcisista, que largou o combate à pandemia para se focar na campanha eleitoral, que perdeu pela maior margem da história da democracia americana: 7.060.140 votos. Para se ter uma ideia da dimensão histórica da derrota, a última vez que um presidente incumbente perdeu a reeleição, o controle da Câmara e do Senado, foi em 1932.

Não satisfeito e agindo como uma criança que não sabe ouvir um não, distorceu de forma delinquente a verdade e criou narrativas bisonhas de que a eleição foi roubada. Entrou com mais de sessenta processos contra os estados em que queria que a eleição fosse virada, todos eles rejeitados pela falta de qualquer prova real.

Trump acreditava que teria sucesso, pois foi em estados com governadores republicanos e os oficiais responsáveis pelas eleições apontados por estes. Porém, o pequeno Joe, como se chama o cidadão comum aqui, lutou pela democracia e não deixou ser persuadido pela voz ameaçadora do homem mais poderoso do mundo. Também Trump esperneou no Supremo Tribunal do país, que havia apontado três juízes na sua administração, e teve seu processo rejeitado em tempo recorde.

Num dia após os Estados Unidos terem registrado o maior número de vítimas da Covid-19, Trump promove o maior ataque à democracia na história da maior democracia do mundo. Em seu discurso no dia 6 de janeiro, incitou a massa de fanáticos seguidores, em grande parte ligados a grupo racistas e de promoção do ódio - palavras estas do FBI -, para não aceitar as eleições e marchar rumo ao Congresso. Covardemente, como fazem sempre esses líderes, não foi junto. E o mundo viu imagens de fanáticos invadindo o Capitólio, a casa do povo.

Lembro que muitos dos cidadãos de ditaduras de países rivais, como Irã, China e Rússia, veem os EUA como uma inspiração, para quem sabe, um dia, seus países poderem se tornar um lugar mais justo para se viver. E agora veem seus governos ridicularizarem a democracia americana e julgá-la como um desastre.

Tivemos a oportunidade, em 2019, de visitar Washington. Passamos pelas principais atrações como o próprio Capitólio e levamos nossos filhos numa visita à Casa Branca, como forma de mostrar nossa admiração pela democracia deste país.

Passamos por quadros dos maiores presidentes, como Lincoln, Roosevelt e JFK, e contamos aos nossos filhos sobre seus heroísmos e suas batalhas. Tudo com uma certa ingenuidade e romantismo, mas que faz parte da típica narrativa histórica deste país. Enfatizamos para eles o mais valioso ativo deste país, que é a democracia.

Ao ver a invasão do Capitólio, senti vergonha da imagem que o país estava passando para o mundo e fiquei pensando nos homens e mulheres do voo da United 93, em 11 de setembro de 2001, que derrubaram o avião na Pensilvânia para salvar o Capitólio do ataque terrorista da Al-Qaeda.

Jardim Sul da Casa Branca (foto: autor)

Confesso que fiquei incrédulo ao ver diversos brasileiros defendendo esse presidente e a invasão do Congresso americano, comparando a situação política dos Estados Unidos com a do Brasil. Democratas viraram petistas e republicanos bolsonaristas, na visão simplista de muitos brasileiros. Apesar de serem os dois países mais importantes das Américas, continentais em tamanho, Brasil e Estados Unidos são muito diferentes, também na política e na relação entre os poderes.

Este país tem apenas dois partidos, que, dentro deles, possuem diversas alas e correntes. No Brasil, para cada ala ou corrente daqui, existem inúmeros partidos. Outro aspecto importante: o Supremo Tribunal de Justiça dos Estados Unidos não entra na questão política, seus juízes não emitem opinião em entrevistas e fazem o seu papel de julgar as questões mais importantes, ligadas a interpretação da Constituição.

A democracia americana é a mais antiga do mundo, com 242 anos, e é o baluarte da soberania popular. Visitando as praças das principais cidades daqui, fazem recordar que, desde a I Guerra Mundial, todas as gerações tiveram de enviar seus filhos para guerras, algumas mais justificadas do que outras, para defender esse ideal tão importante para o americano. Apesar de estar longe de ser perfeito, o país serviu de exemplo para o mundo sobre como funciona um estado de direito.

O Brasil, pelo seu lado, tem uma democracia vibrante, mas ainda frágil, iniciante e com inúmeros partidos que estão longe de defender ideais. Pelo lado da política internacional, o Brasil, historicamente, soube desempenhar muito bem o seu papel de país moderado e conciliador. No governo passado, porém, o país começou a ideologizar a sua política externa, favorecendo ditaduras como Cuba e Venezuela. E o governo atual resolve escolher um lado num problema interno americano, infantilmente, achando que Trump, em algum momento, favoreceu o Brasil.

Quadro do Presidente Lyndon B. Johnson – Escada que leva ao East Room (foto:autor)

A palavra que mais acompanhou esses quatroanos de Trump foi unprecedent (sem precedentes). Ele trabalhou incessantemente para destruir os símbolos e as normas e deslegitimar a democracia. Trump não deixou o horrendo ano de 2020 terminar e provocou mais um desastre de proporção histórica: uma mancha na democracia americana!

Com enorme alívio, olho para o calendário e vejo que faltam poucos dias para o fim de seu governo e quem sabe, também, do pesadelo de 2020.

Gustavo Miotti é economista, sócio da Soprano e doutorando do Rollins College (Winter Park, Florida), onde pesquisa atitudes relativas à globalização nos EUA e China.

mail gmiotti@rollins.edu

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