Caxias do Sul 28/09/2021

João Claudio Arendt descerra seu terceiro livro de poesia

Autor radicado em Caxias do Sul lança “A Cinza Descerrada” em 6 de dezembro, na Feira do Livro
Produzido por Marcos Fernando Kirst, 04/11/2020 às 09:03:47
João Claudio Arendt descerra seu terceiro livro de poesia
Foto: DIVULGAÇÃO

Por MARCOS FERNANDO KIRST

O professor universitário (Mestre em História e Doutor em Letras) João Claudio Arendt é um espécime raro no cenário cultural/literário regional. Não porque faz poesia (a que faz é de qualidade, e isso, sim, é muito raro), mas, especialmente, porque é um escritor que lê poesia. Lê muito, e muita poesia. Isso o torna um poeta leitor de poesia, o que, bem se sabe, é raro.

Ou não. Uma vez que o pressuposto (e a condição) para ser poeta de verdade é justamente portar como atributo a leitura contumaz de poesia, Arendt, que o faz e que assim é, não se torna, por isso, um poeta raro, mas, sim, um raro poeta genuíno. De verdade. Poeta, poeta mesmo, e isso é que é raro.

Afinal, para ser poeta, é preciso ler poesia, ler os poetas, e muito. Caso contrário, cai-se naquela larga sporta comum que acolhe sem critério todos os praticantes de riminhas e empilhadores de clichês, tão bem definidos há mais de século pela poeta (também de verdade) Vivita Cartier (1893 – 1919): “Aquele que com esforço/ Rimas difíceis alista/ Não nasceu para poeta:/ Arranja verso – é versista”.

Justamente porque é Poeta (os de verdade se habilitam a portar em maiúscula o “P” da palavra), Arendt publica pouco. A maior parte do tempo, utiliza lendo (poesia, muita) e a outra, escrevendo. Mas não publica tudo o que escreve, porque é provido também de outro atributo inerente aos Poetas de verdade: a autocrítica.

João Claudio Arendt lança terceiro livro de poemas

Escreve, lê, relê, refaz, reserva para retomar mais adiante (esse “mais adiante”, às vezes, se configura em anos), joga fora, resgata, retoma, lê, relê... Quando, enfim, se vê satisfeito com o produto de sua veia poética, se anima a publicar. O que, também, é raro. Mas comum aos Poetas, que não se vergam à lógica do mercado e tampouco ao incenso da vaidade.

O FAZER POÉTICO

Neste findar de pandêmico ano de 2020, Arendt (nascido em 1970 e radicado em Caxias do Sul desde 2007) efetua o ato pela terceira vez na carreira, dando à luz seu terceiro volume solo de poemas, intitulado “A Cinza Descerrada” (Editora Pedregulho, 2020). A imagem da capa é um registro fotográfico do outono de 2011, em Berlim (“uma chuva de folhas”, informa o autor), e o título foi extraído de um poema do poeta português Herberto Helder (1930 – 2015).

A poética de João Claudio Arendt prima pela concisão, as palavras cirurgicamente evocadas para focar na essência do dito, do sentido, do sugerido, do vivenciado, do pressuposto. Conforme bem coloca o poeta e professor Clóvis Da Rolt, o prefacista da obra, Arendt é um autor que preza pela atenção ao essencial: “O mínimo, o reduzido e o sutil – antíteses de nosso mundo afeito aos excessos e ao vozerio estrondoso – encontram o seu lugar de timoneiros do fazer poético”.

Um fazer poético calcado firme no terreno literário cujas bases se solidificam a partir da companhia das leituras de qualidade. No caso de Arendt, os grandes poetas, muitos deles homenageados nas epígrafes das seis seções nas quais se divide o livro, com os poemas agrupados em “Camadas”. Suas influências literárias são assim por ele definidas: “Não posso dizer que tal ou qual autor(a) me influencia mais ou menos que outro(a). Eu sou um leitor de poesia. Então, se hoje estou às voltas com os sonetos do Camões ou do Petrarca e amanhã com poemas do Goethe, depois de amanhã estarei relendo Rainer Maria Rilke, Herberto Helder, Cecília Meireles, Clóvis da Rolt, Hilda Hilst ou Drummond. Toda boa poesia me comove”.

Para o autor, a poesia possui uma relevância ainda crucial no mundo atual, muitas vezes não detectada pelos próprios protagonistas que a ela se dedicam. “Soe como soar o que vou dizer, mas é estranho ver a poesia a serviço de ruídos e de pautas passageiras. Acho que os(as) poetas deveriam firmar compromisso com a linguagem e não com os temas. Drummond já nos aconselhou a penetrar ‘surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos’”, analisa.

O AMADURECIMENTO DE QUEM LÊ

O hiato entre este “A Cinza Descerrada” e o livro poético imediatamente anterior de João Claudio Arendt é de sete anos. “Quadros Berlinenses” foi lançado em 2013, reunindo o fruto da produção poética a que o autor se dedicou no período em que morou em Berlim, ao longo de 2011. A obra saiu pela Editora do Maneco, em edição bilíngue (português e alemão, via tradução de Sarita Brandt). Antes dele, a estreia em livro solo foi com “Plural da Ausência”, em 2009, obra vencedora do Concurso Anual Literário de Caxias do Sul.

O novo livro sai sob o selo da Editora Pedregulho, sediada no Espírito Santo. Por que a escolha por uma casa editorial de tão longe? Arendt responde: “A Pedregulho é uma editora razoavelmente nova no mercado, que tem uma política editorial focada na diversidade e na pluralidade, e que se propõe a produzir obras únicas. E o mais importante: respondeu ao e-mail que enviei submetendo os originais”.

O autor vê assim a relação entre este trabalho atual com os anteriores: “Acho que há um amadurecimento próprio de quem lê, estuda e escreve muito, mas publica pouco. Em relação aos ‘Quadros Berlinenses’, há um hiato de sete anos, embora os poemas daquele livro tenham sido escritos em 2011-2012. ‘A Cinza Descerrada’ reúne, portanto, uma seleção de poemas criados a partir 2013 – na verdade, antes até, porque a ‘Última camada’ tem algumas elegias que escrevi em 2010, ao completar 40 anos de idade. O livro não gira em torno de um único tema, apesar do título e da organização das partes por camadas. Cada leitor vai encontrar os seus temas no momento da leitura e a cada nova leitura”.

O LIVRO À VENDA

“A Cinza Descerrada” tem data de lançamento marcada para 6 de dezembro, durante a Feira do Livro de Caxias do Sul (que vai de 27 de novembro até 13 de dezembro). Os demais lançamentos dependem, conforme o escritor, “da involução da pandemia”. Mas exemplares já podem ser adquiridos em pré-venda com o autor, ao valor de R$ 35,00 (por ocasião do lançamento, a livraria Do Arco da Velha terá exemplares para venda, porém, com o preço acrescido da comissão). Contatos com o autor podem ser feitos via seu perfil no facebook (https://www.facebook.com/joaoclaudio.arendt/) e pelo e-mail joaoarendt@gmail.com (ou pelo fone 54999516242).

DEGUSTAÇÃO

Excerto da parte VIII da Segunda Camada:

“Quis o inalcançável

sonhei o inatingível

Cruzei o deserto

para ter o mar

Mas conheci a sede e o sal

E com vento e cal

cimentei o meu moinho”